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Luiz Masaru Hayakawa, em entrevista: “BRT de Palmas é um projeto de Primeiro Mundo”

O presidente do Instituto de Planejamento Urbano de Palmas (Ipup), Luiz Masaru Hayakawa, afirma que o novo sistema de transporte coletivo de Palmas, o BRT (Bus Rapid Transit) que começa a ser implantado pode ser a maior obra da administração Carlos Amastha. Orçado em quase R$ 500 milhões e que deve levar quatro anos para ser implantado, o BRT de Palmas, segundo o arquiteto, nasce com inovações, mas agrega experiências dos vários sistemas instalados por todo o mundo a partir da ideia do Ligerinho, de Curitiba (PR). “Quando você pega qualquer sistema, mesmo o de Curitiba (PR), o de Campos Grande (MT), o de Londrina (PR) ou o de Goiânia (GO), e até mesmo o Transmilênio de Bogotá (Colômbia), tudo que for de moderno nesses sistemas está sendo adotado aqui em Palmas”, garante o arquiteto-urbanista.

Hayakawa avalia que do ponto de vista técnico, tanto o BRT como o VLT não têm viabilidade econômica em Palmas, em função do baixo fluxo de passageiros. Ele explica que o projeto palmense só se tornou viável por se tratar de uma obra que vai estruturar a cidade para o futuro. “Brasília tem uma deficiência crônica na questão do transporte público. Ela foi construída para o automóvel e Palmas estava caminhando para o mesmo destino, e acho que ainda tem esse ponto de priorizar o transporte público”, ressalta o gestor.

Ele questiona os investimentos públicos com o advento da Copa do Mundo, que priorizam a construção de estádios suntuosos em detrimento da implantação de sistemas de transporte coletivo eficientes. “Estão gastando R$ 1 bilhão num estádio e estão deixando de investir num sistema de transporte urbano, em Palmas não temos dinheiro para estádio, mas estamos tentando buscar esse recurso para um bom sistema e eu acho que esse é o caminho certo’, comenta o gestor, revelando que na década de 70 Curitiba abriu mão de recursos para construção de um estádio para investir no transporte que virou referência para o mundo todo.

Luiz Masaru Hayakawa garante que o BRT de Palmas é um projeto de Primeiro Mundo, que não deixa nada a deseja a sistemas de transporte coletivo que ajudou a implantar no Brasil e que conheceu em países como França, Alemanha, Japão e Estados Unidos. Nesta entrevista exclusiva ao Jornal Opção, o arquiteto-urbanista fala da sua relação com a cidade, das lições que aprendeu com o ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná Jaime Lerner e da experiência de ajudar a planejar o futuro de Palmas.

O prefeito acaba de lançar o BRT inspirado no projeto do Ligerinho implantado em Curitiba. Como vai ser o BRT de Palmas?

O BTR de Palmas nasce com uma inovação e agregando todos os valores das experiências anteriores. Em qualquer sistema, mesmo o de Curitiba (PR), o de Campos Grande (MT), o de Londrina (PR) ou o de Goiânia (GO) e até mesmo o Transmilênio de Bogotá (Colôm­bia), tudo que é de moderno, que tem de vantagens, está sendo adotado em Palmas. Não se está partindo do zero, não, e sim de uma experiência de 40 anos atrás, que foi o de Curitiba.

E o que é específico do BRT de Palmas, qual a inovação do sistema em relação às experiências anteriores?

O fato de Palmas ser uma cidade planejada, nova, permite inclusive que se avance na questão de projetar todo um sistema para o futuro. Esse foi um dos nossos argumentos, em que deveria colocar esse planejamento no transporte coletivo de Palmas, porque não poderíamos ficar esperando para daqui 30 a 40 anos os problemas de transporte virem e depois tentar consertar, como está acontecendo com Brasília. Brasília tem uma deficiência crônica no transporte público. Ela foi construída para o automóvel, e Palmas estava caminhando para o mesmo destino. Ainda tem esse ponto de priorizar o transporte público no ponto certo. A grande diferença é que Palmas, como uma cidade bem planejada, tem espaços ambientais muito grandes em áreas públicas e isso possibilita até que o transporte público seja melhor integrado com outros aspectos da cidade, a exemplo do ambiental, praças e equipamentos. Palmas é uma das poucas cidades no mundo que pode ter um corredor de transporte, quase um eixo inteiro percorrendo um trecho totalmente arborizado. Basta a gente fazer o projeto e arborizar o trecho inteiro e ter uma interação com o clima da cidade. Essa interação é muito interessante do ponto vista da sinergia do usuário do transporte com a paisagem urbana da cidade. Ela vai se identificar com os locais, algo muito difícil, por exemplo, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte ou mesmo Curitiba, onde os espaços são muito estreitos, confinados. A dificuldade hoje em São Paulo para se colocar um corredor de transporte — apesar de ser um grande benefício para a população, mesmo assim muita gente ao longo do eixo reclama — é que está muito próximo ao comércio e acaba interferindo no uso ao longo do eixo, no comércio, no serviço, na própria moradia. No nosso caso já temos a chance de corrigir. Inclusive estamos implantando todo um sistema de transporte ao longo do eixo, mas junto aos grandes conjuntos habitacionais também, e os próprios conjuntos estão planejando sua localização em função do transporte público.

O BRT é um tipo de transporte que se estrutura ao longo de um traçado urbano de alta densidade demográfica. No caso de Palmas ao longo da Avenida Teotônio Segurado, que liga a cidade de norte a sul. Como um ônibus longo com capacidade para 260 pessoas atravessa a Praça dos Girassóis, que é um obstáculo, e os Aurenys, a região mais populosa da cidade, que precisa integrar o corredor de transporte?

A dificuldade dos ônibus mais compridos é igual a de um ônibus no tamanho normal porque o eixo está projetado para passar quase no mesmo trajeto. Ainda não é perfeito porque tem uma pequena diferença mecânica, mas a tendência da evolução da indústria de ônibus deve permitir no futuro que isso seja milimétrico. Hoje para manobrar um ônibus em termos de curva é a mesma coisa de um ônibus normal. É evidente que no início se pensou muito na questão da praça [dos Girassóis], mas não há necessidade de se mexer na praça, talvez daqui a 15, 20 anos, uma tecnologia limpa totalmente elétrica, às vezes não vai interferir no veículo passar na praça, a gente vê nas cidades europeias, como é o caso de Estrasburgo, na França, em que o trem passa no centro, misturando com rua de pedestre, inclusive e é um desenho bonito, e não chega a interferir no trânsito. No início vai ter essa separação, o veículo vai contornar a praça. Com a relação aos Aurenys já estamos fazendo a interligação dentro da proposta da ponte, ligando através do (bairro) Berta Ville e conectando com a NS10, atrás do Estádio Nilton Santos. O objetivo de passar o BRT para lá é que o eixo passaria no meio de todo um loteamento, o Aureny III e IV, se estendendo até Taquaralto e depois à direita ao Taquari. Isso faz com que todas aquelas áreas ali sejam atendidas por esse eixo e também promova o desenvolvimento econômico e social ao longo de todo esse eixo.

Muitos dizem que Palmas ainda não tem fluxo de passageiros para um projeto como o BRT. Tem sentido essa ressalva?

Tanto o BRT como o VLT, se fossemos analisar em termos de estudo de viabilidade econômica, para uma cidade de 270 mil habitantes numa extensão de 30 quilômetros, o caso de Palmas, não teria viabilidade nenhuma das duas propostas. Se fosse buscar um financiamento externo tanto no BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] como no Banco Mundial ou no Bird, nenhuma deles aprovaria o projeto por falta de viabilidade, até porque nós temos muitos espaços vazios e pela extensão o custo de um empreendimento desse não se pagaria. Para se ter uma ideia de como é difícil ter viabilidade no sistema de transporte, até mesmo o trem no Japão, que tem um carregamento fantástico, todo lotado, a própria ferrovia do japonês era inviável e não era viável economicamente; para se tornar viável o Japão na época fez uma série de parcerias com outros tipos de empreendimentos junto a ferrovia, que eram os shoppings, os centros comerciais e os hotéis. Então se você pegar numa análise fria de estudo de viabilidade econômica do transporte BRT e VLT para Palmas, as duas propostas são inviáveis. Na realidade, o que fizemos junto ao governo? Alertamos ao governo que esse projeto estaria preparando a cidade de Palmas para o futuro e ao mesmo tempo dando uma qualidade de vida, antecipando essa qualidade de vida para a população. Em vez de corrermos como estamos fazendo hoje, com toda movimentação de falta de política de transporte urbano, com a revolta do usuário tentando melhorar esse transporte, nós já estamos antecipando e melhorando o transporte para essa população. Muito foi questionado, por exemplo, que o programa todo só era para cidades acima de 500 mil habitantes. Realmente a única cidade com menos de 500 mil habitantes incluída no projeto foi Palmas. Discutir isso internamente, gente da própria cidade questionar a viabilidade, é um absurdo, porque estamos ganhando o baita de um presente, se a gente não ganhar outra cidade vai levar. Temos mais é que pegar esse presente e trabalhar para que nossa população usufrua dele com maior qualidade possível. Outras cidades estão pagando o preço de não ter feito isso no passado, há 20, 30 anos atrás. Muito se gastou em infraestrutura que está se perdendo. Mesmo em cidade que poderia estar investindo no transporte público e fez opção pela Copa do Mundo, e conseguiu um estádio de futebol. Eu sempre ouvia o Jaime Lerner falando na década de 70, Curitiba teve a chance de ter um estádio de futebol, mas em vez pegar esse financiamento para o estádio, ele pegou esse dinheiro e construiu o sistema de transporte. Hoje há cidades que estão perdendo essa oportunidade, estão gastando R$ 1 bilhão num estádio e deixando de investir num sistema de transporte urbano. Em Palmas não temos dinheiro para estádio, mas estamos tentando buscar esse recurso para um bom sistema e eu acho que esse é o caminho certo.

O que significa esse recurso liberado pelo governo federal para a implantação do BRT?

Isso significa muito mesmo, porque proporcionalmente por habitante a cidade é a capital que mais obteve recurso para o transporte público. Esse montante dividido pelo número da população, o valor é imenso, chega a ser um disparate. Na realidade a gente competiu com outras cidades que têm acima de 500 mil habitantes, com 800 mil a 1 milhão de habitantes, e algumas delas obtiveram recurso menor que Palmas. Temos mais é que pegar esse recurso e investir de maneira adequada até para trazer uma qualidade de vida melhor para a nossa cidade, não só na questão do transporte urbano, mas pensando também em outros veículos e outras opções que poderíamos ter. Esse recurso não é só para o BRT, tem para ciclovias, para calçadas, tudo isso envolvendo acessibilidade e mobilidade.

O conceito do BRT é simples, é um transporte rápido mas ao longo dele há um eixo de organização da cidade, que está sendo projetado para o futuro de Palmas. Como será o futuro da cidade baseado nesse eixo?

Transporte não é somente carregar pessoas, é também um indutor de crescimento e desenvolvimento econômico e social. Temos de analisar pelo sentido humano. Quando se tem um bom sistema de transporte coletivo, quem está dentro de um ônibus olha a cidade e, todos os trechos, desde os piores bairros e piores ruas, as melhores ruas, o melhor e o pior comércio, as atividades e serviços afins, e acaba conhecendo basicamente em todo seu trecho todos os serviços que são ofertados. Isso é muito importante para a pessoa interagir socialmente. Essa interação do transporte com esse incentivo é fundamental porque dinamiza a economia da cidade. O sistema de transporte hoje não é mais uma latinha de sardinha, pelo contrário, tem uma visibilidade para todos os efeitos. Palmas, com um eixo de desenvolvimento, que é a Teotônio e também nos Aurenys, possibilita que a população faça essa interação com o crescimento uerbano. Muitas vezes se procura postergar o metrô porque ele enterra as pessoas, se vai num sistema enterrado e só se conhece o ponto de saída e de chegada, e não enxerga nada no meio do caminho. Então a interação da vida do sistema é muito importante.

O BRT é a grande obra da gestão Amastha?

Com certeza. Não é uma obra fácil, tem dificuldades, tem que ter muita compreensão por parte da população porque nenhuma obra é limpa, elas causam transtornos, e isso vai causar também. Lógico que a tendência é rápido porque essa obra junto a Teotônio, por exemplo, quase não interfere em muita coisa porque está no meio do canteiro. Muitas vezes me questionam, porque é no meio do canteiro, porque não numa faixa, mas para o canteiro ela é fundamental até para a preservação da própria impermeabilidade do solo, vai fazer com que seja só para o transporte público, com isso o motorista não vai se preocupar se vai ter um táxi na frente, uma moto, vai ter prioridade absoluta no seu tempo. Então se poderá ter o horário que ele vai chegar na estação, no caso da via segregada o ônibus tem tudo para obedecer um tempo e segurança. Um veículo desses, que carrega 200 a 300 passageiros, tem de ter segurança, não pode ficar freando por causa de uma pessoa embriagada, um descuidado, um motorista desavisado, não pode ter 200 pessoas em risco por causa de uma.

Quando começam as obras do BRT?

Nós estamos conversando com o pessoal do ministério (das Cidades) para tentar organizar os valores que foram liberados em função dos estudos apresentados. Apresentamos estudos na ordem de R$ 700 milhões e foram liberados R$ 400 e pouco milhões. Então estamos adequando aqueles projetos, nos quais colocamos mais coisas, e agora estamos tentando enquadrar no que foi liberado, que não é pouco. Nós pedimos bastante para conseguir mais ou menos e conseguimos mais do que esperávamos. Agora estamos fazendo adequação, tem o projeto todo que é adequação do próprio ministério, no regime diferenciado de concorrência, que será feito. Esse processo de licitação será lançado e partir daí, evidentemente, os prazos decorrentes da licitação dependem muito do nível de concorrência. Devem participar grandes empresas, porque é uma obra de certa complexidade, tem ponte, viaduto, tem trincheira e tudo isso deve trazer, digamos, grandes expectativas. Mas acho que ela deve movimentar bastante economia da cidade.

Depois de um ano em Palmas que balanço o sr. faz da sua atuação à frente ao Ipup?

Eu fico muito feliz de poder contribuir. Jaime Lerner sempre falava que conhecimento não pode ficar guardado para você mesmo, pelo contrário, conhecimento deve ser disseminado. Quem tem conhecimento tem de passar para os outros. A minha função aqui foi de trazer tudo o que eu tinha de conhecimento. Ao longo do tempo trabalhei em muitas cidades, planejei uma boa parte da cidade de Curitiba. Acho que trazer uma experiência, compartilhar conhecimento com as pessoas, com a cidade, foi gratificante. Conhecer ambientes novos, pessoas novas e até uma cidade nova, a potencialidade de uma cidade como Palmas, que eu não conhecia, não tinha noção e hoje vejo a grande potencialidade que tem essa cidade, para mim foi gratificante,. Valeu a experiência, não sei por quanto tempo, era para ter ficado três meses e acabei ficando um ano e três meses. Passou um ano da minha expectativa, deixei minha família lá, isso causa um problema familiar, mas não foi em vão. A gente está tentando contribuir e espero que a cidade entenda isso. Não estou disputando espaço com ninguém, pelo contrário, não tenho nenhuma expectativa nesse sentido, não sou candidato a nada, não sou político e o objetivo é tentar trazer o melhor que existe no planeta para a cidade de Palmas.

Fonte: Ruy Bucar - Jornal Opção

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